Central: Documentário cinematográfico sem abrir mão do jornalismo

Do Coletiva.net

Após a transmissão do documentário Central, os diretores Tatiana Sager e Renato Dorneles conversaram com os participantes do Diálogos ARI de Jornalismo, realizado na Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) pela Associação Riograndense de Imprensa. O bate-papo foi conduzido pelo coordenador dos cursos de Comunicação da instituição de ensino, Leonel Aires, que logo questionou sobre a relação entre cinema e jornalismo. “Central é uma produção cinematográfica sem abrir mão do jornalismo”, explicou o repórter e colunista de Zero Hora e Diário Gaúcho, Renatinho, como é conhecido.

Tatiana concordou e afirmou que o material se trata de uma grande reportagem, feito com tranquilidade – mais de dois anos de produção – e com base em muita investigação. “O jornalismo diário não nos permite muito tempo de trabalho. E, aqui, conseguimos trazer esse tema por termos tempo de produzir”, falou. Renatinho lembrou, inclusive, que a equipe de montadores foi alterada três vezes. “As primeiras, eram mais ligados ao cinema, e queriam um material mais romântico e ligado ao estético. E nós queríamos mostrar a realidade”, ressaltou.

Para chegar ao tempo de 1h27 de filme, foram cerca de 200 horas de gravação. “A gente sempre se surpreende, independentemente do quanto convivemos com essa realidade durante as filmagens. Não temos ideia do poder que as facções têm dentro do presídio”, sentenciou Renatinho. Ele destacou que o objetivo foi mostrar a realidade e, procurando, também, não retratar o preso como um ‘coitadinho’. “Sim, eles vivem em condições precárias. Mas quem paga a conta de todo esse sistema é a sociedade”, falou, ao mencionar o empresário assassinado no estacionamento de um supermercado de Porto Alegre: “Foi uma ordem que veio dentro do Central”.

Para Tatiana, esse trabalho foi marcante, pois a fez repensar suas percepções. Ela contou que, durante o processo de filmagem, reuniu-se com 26 lideres de facções e um deles perguntou qual era a proposta do filme. “Eu disse que queríamos mostrar para a sociedade as condições insalubres que eles vivem. E ele respondeu: “Depois que vocês mostrarem, não entra mais preso aqui”, ou seja, a gente iria estragar o negócio deles”, relatou, ao afirmar que essa “foi a coisa mais surreal que eu vivi na minha vida”.

Sobre a segurança da equipe, Tatiana assegurou que não tiveram nenhum tipo de proteção especial e que foi tudo muito tranquilo, inclusive, disse que ela, por ser mulher, foi ainda mais respeitada pelos apenados do que Renatinho. “Preso respeita muito mulher, pois é com elas, sejam mães, irmãs, companheiras, que eles têm contato com o mundo externo.” Ao final, a jornalista e diretora encorajou os participantes a produzirem um documentário: “Façam, pois demanda tempo, mas o resultado é muito bacana”.

O filme, de 1h27 de duração, retrata o domínio das facções no maior presídio do Brasil. Produzido pela Panda Filmes, foi inspirado no livro ‘Falange Gaúcha – a história do Crime Organizado no RS’, de Renato Dorneles.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *