Foi lançado recentemente o livro “Elogiemos os Homens Ilustres”, do repórter de texto James Agee e do repórter-fotográfico Walker Evans. Vigésimo volume da coleção Jornalismo Literário, da Companhia das Letras, a reportagem é um relato (escrito e visual) sobre pequenos agricultores falidos pela depressão dos Estados Unidos nos anos 30. Publicado em 1941, o livro tornou-se uma das mais importantes referências jornalísticas daqueles tempos.
Na forma, sua edição é original: após a capa, de imediato segue um ensaio com 61 fotografias, em preto e branco e sem legendas, expondo adultos, crianças, interiores e exteriores de casas de estabelecimentos rurais e imagens urbanas de comunidades do estado do Alabama, no Sul norte-americano.
As páginas iniciais antes do texto ainda fogem de uma edição convencional; há poemas, um prefácio que começa com recomendação entre parênteses (“Aconselha-se aos leitores sérios que se dirijam ao livro-propriamente-dito depois de terminar a primeira parte do prefácio. Um retorno posterior não fará mal”.), e descrição de pessoas e lugares que estão na reportagem, que ainda informa: “Como nenhum dos personagens ou eventos deste volume é fictício, os nomes da maioria das pessoas, e quase todos os topônimos, foram alterados. As idades fornecidas, e os tempos verbais em todo o texto, a não ser onde seja claro o contrário, ou deliberadamente ambíguo, referem-se ao verão de 1936”.
O sumário é denominado de Projeto do livro, e, entre outras criações dos autores, uma epígrafe com a histórica frase que encerra o Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels, mas um asterisco avisa: “Essas palavras estão aqui para enganar os que por elas se deixem enganar. (...) pode ser útil fazer a explícita declaração de que nem essas palavras nem os autores são propriedade de qualquer partido político, fé ou facção”.
Max Weber, sociólogo alemão e autor de “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, entre outros textos fundamentais para a compreensão da sociedade, respondeu o seguinte para a pergunta “qual era seu ofício?”: “Meu ofício é exagerar”, disse ele. Estava se referindo à idéia-chave de seu método, o “tipo-ideal”, uma construção mental para o entendimento da realidade onde a acentuação de componentes acaba por dar forma ao que se procura compreender.
“Elogiemos os Homens Ilustres” não é um texto sociológico, é puramente jornalístico, mas a capacidade dos autores para captar o que observaram e registraram guarda muita semelhança com o método referido. Porque as pessoas e as situações descritas aparecem como entidades por inteiro. Como conseguir “ver” através do texto um meeiro, por exemplo? Ou sua casa, sua família, cozinha, despensa, quartos, roupas e sapatos? Pois Agee relata, com a arte da extrema minúcia, com a acentuação de detalhes em extensa série, materializando um mundo que somente a alta percepção pode conseguir.
No texto é contada a história de três famílias de agricultores e basta para se conhecer o resultado da falência do capitalismo liberal após a insolvência da Bolsa de Valores de Nova York em outubro de 1929. Os Estados Unidos se recuperariam, economicamente, somente após a segunda guerra. Foi um período, portanto, que ofereceu as realidades registradas nesta reportagem de alto valor jornalístico.
Na história recente do RS tem um exemplo de como um determinado período com transformações profundas na economia também foi capaz de gerar jornalismo. É o caso da imprensa de cooperativas (abordada genericamente no artigo “Sobre o jornalismo de agronegócios”). Dentro desta imprensa havia uma revista.
A revista Agricultura & Cooperativismo, ou A & C, como ficou conhecida, circulou pela primeira vez em março de 1976. Era uma publicação com o mesmo formato das revistas semanais de hoje, capas sempre em policromia, média de 42 páginas em papel off-set de gramatura média, tiragem de 15 mil exemplares. A & C era um veículo da Federação das Cooperativas de Trigo e Soja do Rio Grande do Sul (Fecotrigo) e editado pela Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre (Coojornal) desde seu primeiro número até a edição de setembro/78. Após, passou a ser editada exclusivamente pela federação.
Nesta primeira fase é criado o jornalismo característico da revista. Como está escrito no jornal da cooperativa dos jornalistas, Coojornal, de agosto-setembro/76:
"Dedicada aos assuntos de agropecuária e cooperativismo, esta Revista está introduzindo uma nova forma de jornalismo neste setor, que sempre foi abordado por inúmeras publicações. Além da qualidade editorial e da fiel obediência a critérios exclusivamente jornalísticos, A & C tem uma grande preocupação com a linguagem, a forma de se comunicar com os leitores”.
Que nova forma de jornalismo era esta? Basicamente um jornalismo do setor cooperativo que fez a classe social dos pequenos produtores ser informação jornalística. Com A & C, a pequena propriedade agrícola familiar tornou-se pauta de matérias.
O período de circulação de A & C, março/76 a janeiro/82, se deu dentro da modernização da agricultura no RS, ou desenvolvimento do capitalismo no campo, com radicais mudanças na estrutura da terra e pesadas conseqüências sociais. Na classe dos pequenos produtores esta nova dinâmica (baseada em dois grãos, soja e trigo) condicionou uma série de pressões na produção e mesmo no destino das pessoas no sentido da reprodução, subordinação e desintegração de estabelecimentos rurais.
Foi esta tensão que atraiu o jornalismo de A & C. E, se objetivamente, o critério jornalístico existia, a vontade de editores e repórteres de escrever sobre esta classe teve algumas condições de se expressar (nunca esquecendo que na época havia a ditadura militar, vigorando o Ato Institucional número 5 que, em síntese, concluía e determinava: “Excluem-se de qualquer apreciação judicial todos os atos praticados de acordo com este Ato institucional e seus Atos Complementares, bem como os respectivos efeitos”).
Portanto, com A & C aconteceu o seguinte: procurou-se localizar situações para a produção de matérias e essas foram encontradas numa classe social, a dos pequenos produtores. Desta maneira, foi idealizado e praticado um texto que contava o que acontecia com a fonte (e ao mesmo tempo leitor). O conteúdo era uma determinada situação onde a fonte representava formas de existência de sua classe, e isso, de alguma maneira, indicava a forma que deveria assumir o texto.
Um texto não apenas acessível, simples, compreensível, mas, que, principalmente, colocasse as palavras e expressões que realmente faziam parte da vida destes produtores, onde suas realidades (o conteúdo apreendido para as matérias) estivessem refletidas. Um exemplo, como diz A & C de junho/78:
“Em Rondinha, município que fica na área da Cooperativa de Sarandi, o padre Francisco Lobatto andou espalhando uma explicação sobre a seca que deixou a maioria dos colonos preocupados.
Dizia o padre: - A seca é um castigo de Deus. O mundo vai acabar e vai virar fogo. Mas primeiro teremos sete anos de carestia.
Rondinha foi um dos mais atingidos dos seis municípios que pertencem à Cooperativa, A pastagem secou, a quebra da soja foi de 50% e desde dezembro que não caía uma chuva boa, que não fosse garoa. O padre Lobatto aproveitou para encher sua igreja de colonos. Começou a percorrer o interior avisando, cada dia, que oito famílias deveriam rezar uma hora por dia, para terminar a seca. Não tinha quem escapasse.
Mas, quando o padre Lobatto teve que explicar isso para os repórteres de A & C, se apavorou, como se tivesse visto o diabo. E não houve jeito dele contar de onde tirou essa estória de ‘fim do mundo’. Na verdade, ninguém sabe a causa da falta de chuvas. Se fala muito em desmatamento e até mesmo em explosões das bombas atômicas, que volta e meia estouram pelo mundo, causando uma série de problemas. Mas em castigo de Deus ninguém tinha pensado ainda.”
O jornalismo de A & C produziu significados para os produtores-leitores: valorização da agricultura, das comunidades rurais, da vida do pequeno produtor, de seu trabalho, e, principalmente, do cooperativismo. Aliás, é interessante notar que, na época, o cooperativismo era compreendido por jornalistas como uma ideologia que trazia consigo uma forma de organização social do trabalho, como a própria cooperativa dos jornalistas, baseada nas produções de seus associados. Combinou-se, assim, o cooperativismo dos jornalistas com o cooperativismo de produção agrícola.
Nas suas centenas de reportagens A & C mostrou o que acontecia com milhares de pequenos produtores rurais. E estampou, em suas fotografias, as suas expressões. Fez jornalismo em apenas um determinado, e curto, período gaúcho, criando uma forma própria para escoar seu conteúdo – mas foi capaz de descrever o interior do RS de modo único.
Hélio Ademar Schuch é professor do Departamento de Jornalismo da UFSC.